Cinco formas de reconstruir sua autoestima quando você se sente invisível
Tem um tipo de solidão que não faz barulho.
Você conversa.
Responde mensagens.
Vai trabalhar.
Posta alguma coisa.
Ri no momento certo.
E ainda assim sente que poderia desaparecer por uns dias sem ninguém realmente perceber.
É um sentimento estranho porque nem sempre acontece por falta de pessoas.
Às vezes acontece por falta de presença real.
E sinceramente? A internet piorou bastante isso.
Agora a gente mede existência em:
- visualizações
- curtidas
- respostas rápidas
- convites
- gente lembrando do seu aniversário sem ajuda do aplicativo
O problema é que autoestima construída só com reação dos outros vira aluguel emocional.
Uma hora alguém atrasa o pagamento.
1. Pare de usar atenção como prova de valor
Ser notado não é a mesma coisa que ser importante.
Tem gente barulhenta demais recebendo atenção o tempo inteiro.
E gente profundamente interessante passando despercebida porque não sabe se vender como trailer de streaming.
A autoestima vai ficando frágil quando você começa a depender exclusivamente de resposta externa:
- alguém elogiando
- alguém chamando
- alguém validando
- alguém escolhendo você
O problema é que pessoas distraídas não são boas juízas do seu valor.
Uma coisa prática:
observe quantas vezes você automaticamente pensa:
“ninguém ligou”.
Às vezes ninguém ligou mesmo.
Às vezes as pessoas só estão cansadas, ocupadas ou anestesiadas olhando a própria vida desmoronar em parcelas de 12 vezes.
Nem tudo é rejeição.
E nem toda rejeição define alguma coisa.
Sugestão cultural
Assista Frances Ha.
É um filme maravilhoso sobre existir meio perdida sem deixar de existir por causa disso.
2. Faça alguma coisa pequena que exista fora do olhar dos outros
Tem uma diferença enorme entre:
“algo que eu gosto”
e
“algo que eu gosto porque alguém aprovou”.
Quando você se sente invisível, começa a abandonar partes suas porque elas não geram retorno imediato.
Só que identidade precisa de prática privada também.
Cozinhe uma receita nova.
Monte uma playlist absurda.
Cuide de uma planta.
Escreva duas páginas horríveis num caderno.
Aprenda um acorde.
Não porque vai impressionar alguém.
Porque sua vida interna precisa continuar respirando.
A autoestima melhora quando você percebe que ainda consegue criar presença dentro da própria rotina.
Sugestão cultural
Leia O Ano do Pensamento Mágico.
A Joan Didion escrevia como alguém observando o mundo sem precisar gritar para existir nele.
3. Repare onde você desaparece para agradar
Muita gente se sente invisível porque passou anos treinando o próprio apagamento.
Você:
- evita incomodar
- concorda rápido
- pede desculpa demais
- diminui gostos
- fala baixo emocionalmente
Aí chega um momento em que ninguém sabe mais quem você é.
Nem você.
Tem uma frase simples que ajuda:
“eu também queria escolher isso.”
Parece pequena.
Mas começar a expressar preferência reconstrói presença.
Escolher restaurante.
Escolher filme.
Escolher roupa.
Escolher opinião.
Existir também é ocupar espaço sem pedir desculpas o tempo inteiro.
Sugestão cultural
Veja Encontros e Desencontros.
É praticamente um filme sobre duas pessoas tentando se sentir reais no meio do ruído do mundo.
4. Seu valor não pode depender do melhor momento dos outros
Tem dias em que você olha redes sociais e parece que todo mundo:
- é amado
- desejado
- talentoso
- interessante
- fotografável
Enquanto você está escolhendo qual louça lavar primeiro porque a pia começou a desenvolver personalidade própria.
Só que autoestima construída em comparação sempre perde.
Porque você está comparando bastidor emocional com vitrine editada.
Uma prática boa:
reduza o consumo automático de pessoas que fazem você se sentir constantemente inadequado.
Não por inveja maldosa.
Por higiene emocional.
Nem todo conteúdo faz bem pra cabeça cansada.
Sugestão cultural
Escute “Nobody”, da Mitski.
Poucas músicas entendem tão bem a mistura de humor, carência e invisibilidade social.
5. Reconstruir autoestima é mais artesanal do que inspirador
Infelizmente ninguém acorda plenamente seguro depois de um vídeo motivacional com piano ao fundo.
Autoestima geralmente volta em pequenas cenas:
- quando você termina algo
- quando sustenta um limite
- quando volta a rir de verdade
- quando percebe que não está mais implorando atenção
- quando consegue passar um domingo sem se odiar
É lento.
E talvez isso seja bom.
Coisas frágeis crescem rápido demais.
Uma pergunta útil:
“o que me faz sentir uma pessoa inteira por alguns minutos?”
Comece por aí.
Não parece revolucionário.
Mas quase nada realmente importante parece no começo.
Sugestão cultural
Leia A Paixão Segundo G.H..
Não é leitura leve.
Mas poucas pessoas escreveram tão profundamente sobre identidade, vazio e presença humana.
Os números da sorte de hoje
3
Número clássico de expressão.
Na astrologia e na arte, o 3 aparece muito ligado à criatividade e presença. Talvez porque até a nossa personalidade precise de plateia às vezes.
8
O 8 tem fama de poder e reconhecimento.
Mas eu gosto dele porque parece dois círculos tentando se sustentar mutuamente. Meio como autoestima em semanas difíceis.
9
Número de fechamento emocional.
Bom para quem está tentando parar de medir valor próprio pela atenção de pessoas emocionalmente indisponíveis. Um hobby nacional moderno.
14
Na cultura popular, 14 tem energia de mudança meio caótica.
Tipo cortar o cabelo após crise existencial e depois descobrir que talvez o problema fosse cansaço mesmo.
21
Porque fazer 21 anos parecia idade de adulto completo.
Depois você chega lá e percebe que ninguém sabe muito bem o que está fazendo.
Libertador, de certa forma.
42
O famoso número de O Guia do Mochileiro das Galáxias.
A resposta para o sentido da vida sendo “42” continua sendo menos confusa que muita thread de autoestima na internet.
Extra da Marta
Extra da Marta
Vá tomar café em algum lugar bonito sem transformar isso em teste social.
Sem esperar que alguém note seu livro.
Sem imaginar encontro cinematográfico.
Sem analisar se parece interessante sentado sozinho.
Só tome um café quente e observe pessoas passando.
Existe uma paz discreta em parar de performar existência por algumas horas.
Encerramento
Talvez autoestima não seja aprender a se achar incrível o tempo inteiro.
Talvez seja parar de concluir que você não tem valor toda vez que o mundo está distraído.
Você não precisa virar alguém magnético.
Nem inesquecível.
Nem admirado por todos.
Precisa só começar a construir uma relação menos cruel consigo mesmo.
Na vida real, pequenas mudanças já ajudam bastante.
E presença verdadeira quase nunca faz barulho.



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