Cinco formas de gostar de música brasileira contemporânea (feita por jovens)
Tem uma fase da vida em que a gente começa a ouvir certas músicas e pensa: “talvez eu tenha envelhecido”.
Depois percebe que não. Às vezes a música só não bateu mesmo.
E tudo bem.
Existe uma pressão silenciosa para gostar da cena contemporânea. Principalmente quando ela vem embalada por gente bonita, clipes em VHS, referências cultas e comentários dizendo “isso aqui mudou minha vida”.
Aí você escuta e sente… absolutamente nada. Nem uma tristeza elegante.
O mais curioso é que muita gente sente isso e fica com vergonha de admitir. Como se não gostar automaticamente transformasse a pessoa num tio do Facebook reclamando da juventude.
Calma. Você pode não gostar de um disco e ainda continuar sendo uma pessoa funcional.
Talvez o problema não seja a música.
Talvez seja a expectativa de ter uma experiência transcendental às três da tarde de uma terça-feira.
1. Pare de procurar “a banda da sua vida”
Tem gente ouvindo álbum novo como quem procura iluminação espiritual.
Acontece. Você coloca o fone já esperando sentir um raio atravessar a alma. A música mal começou e você já quer descobrir se aquilo vai virar tatuagem emocional.
Às vezes não vira.
E sinceramente? A maioria das músicas que realmente marcaram nossa vida apareceu sem cerimônia. Tocando num ônibus, num quarto bagunçado, num vídeo aleatório ou numa madrugada meio torta.
Talvez ouvir música brasileira contemporânea fique mais interessante quando você tira dela a obrigação de ser genial.
Um artista não precisa mudar sua existência para ser bom.
Às vezes ele só precisa acompanhar seu domingo.
Sugestão cultural
Assista ao filme Alta Fidelidade.
Pouca coisa explica melhor essa mania humana de transformar gosto musical em teste de personalidade.
2. Talvez você esteja procurando sujeira emocional
Tem uma diferença enorme entre música “bonita” e música “viva”.
Muita gente sente falta de algo menos polido. Menos calculado. Menos consciente da própria estética.
E isso não é implicância.
Quando você escuta um funk gravado no improviso ou um rap feito quase no limite da gambiarra, às vezes encontra mais urgência humana do que em um álbum inteiro cheio de sons suaves e capas minimalistas.
Nem toda delicadeza emociona.
Às vezes ela só deixa a pessoa com vontade de lavar uma louça em silêncio.
Talvez o que você esteja procurando seja risco. Imperfeição. Alguém cantando como se realmente tivesse algo entalado.
Sugestão cultural
Escute Mateus Fazeno Rock com calma.
Especialmente quando estiver cansado da sensação de que tudo parece “curado demais”.
3. Não confunda identificação com qualidade
Uma música pode ser excelente e ainda assim não conversar com você.
Isso vale para Tim Bernardes, para shoegaze brasileiro, para MPB contemporânea e para metade dos discos que aparecem nas listas de “melhores do ano”.
Existe uma diferença entre:
- “isso é ruim”
e - “isso não me atravessa”.
Quando a gente aprende essa diferença, ouvir música fica menos irritante.
Nem tudo precisa entrar na sua biografia emocional.
Tem livro que você admira sem amar.
Tem filme que você respeita sem revisitar.
Com música acontece igual.
Sugestão cultural
Veja Quase Famosos.
Porque ele entende uma coisa importante: música também é contexto, fase da vida e expectativa exagerada de gente sentimental.
4. Pare de ouvir tudo sozinho no algoritmo
O algoritmo adora transformar descoberta musical em uma experiência meio asséptica.
Você ouve:
- sentado
- olhando a capa
- esperando impacto
- analisando produção
- julgando autenticidade
Tudo muito clínico.
Mas música nasceu em grupo. Em festa. Em carro. Em show ruim. Em gente cantando errado.
Talvez algumas bandas brasileiras contemporâneas façam mais sentido ao vivo, em pequenos festivais, em vídeos mal filmados ou no caos de um bar quente demais.
Às vezes a música não está faltando alma.
Talvez esteja faltando contexto humano.
Sugestão cultural
Assista ao documentário Stop Making Sense.
Não é brasileiro, mas explica perfeitamente como presença muda completamente a experiência musical.
5. Você não precisa gostar da “cena”
Talvez essa seja a parte mais libertadora.
Você pode amar uma música isolada sem querer participar de estética nenhuma.
Não precisa virar especialista em vinil.
Não precisa posar de melancólico urbano.
Não precisa tirar foto olhando para baixo segurando câmera analógica.
Inclusive, obrigada aos céus por isso.
Tem gente que gosta da comunidade. Outros gostam do visual. Outros gostam do discurso.
E tem gente que só quer uma música honesta pra ouvir enquanto volta pra casa.
Tudo bem.
Talvez maturidade musical seja justamente parar de procurar pertencimento em cada playlist.
Sugestão cultural
Escute a trilha de Tropa de Elite, principalmente a música Rap das Armas.
E tenta reparar numa coisa curiosa: a sonoridade da música praticamente conversa com o barulho do cotidiano. O ritmo, a repetição, a tensão… tudo parece construído observando os sons urbanos e a violência ao redor.
Pode parecer estranho chamar isso de “musical”, mas existe uma inteligência cultural muito forte aí.
Às vezes a música ganha força justamente quando para de tentar soar sofisticada e começa a soar verdadeira.
Os números da sorte de hoje
3
Porque quase toda banda clássica resolveu funcionar em trio em algum momento. A humanidade confia profundamente no poder de três pessoas brigando artisticamente.
7
O número favorito de quem gosta de mistério, astrologia e álbuns conceituais com capas pretas.
11
Na numerologia dizem que é um número intuitivo. No rock, parece mais um horário perigoso para começar uma conversa sobre “o que é música de verdade”.
22
Número de construção e transformação. Também combina com a quantidade de vezes que alguém já falou “você precisa ouvir esse disco no momento certo”.
44
Parece número de piloto de Fórmula 1 e de faixa escondida em álbum alternativo lançado em fita cassete.
88
Tem energia de synthpop antigo, neon, fumaça artificial e gente dramaticamente encostada numa janela pensando na vida.
Extra da Marta
Extra da Marta
Pegue um café no fim da tarde e vá caminhar ouvindo uma música brasileira nova sem tentar decidir imediatamente se ela é genial ou horrível.
Só escuta.
A humanidade criou opinião rápida demais para coisas que talvez precisassem de duas voltas no quarteirão.
Encerramento
Talvez você não esteja desconectado da música contemporânea.
Talvez só esteja cansado de consumir tudo como se precisasse emitir parecer crítico em cinco minutos.
Nem toda arte entra na nossa vida pela porta da frente.
Algumas chegam devagar. Outras nunca chegam. E sinceramente? Faz parte.
Na vida real, gosto também é encontro.
E encontro não acontece por obrigação.
Talvez uma dessas formas funcione pra você. Ou talvez você descubra outra sozinho.
O que já seria um ótimo começo.

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